12/11/2008

Um tiro pra não se arrepender.

Ela sentou perto dele, na beirada da cama. Analisou o corpo masculino, um tanto forte, estendido sobre as cobertas meio emboladas. Tirou as botas de cano alto e salto fino para poder esticar as pernas sobre a cama e recostou-se na cabeceira. "Vai ser uma noite longa", comentou como quem não quer nada. "Gostaria eu que não fosse" ele meio que murmurou de volta. "Foi você quem quis assim" ela disse enquanto brincava de girar a aliança dourada no dedo anelar esquerdo "Sabe, me arrependo de muitas coisas na vida". Ele mexeu as pernas como se procurasse um jeito mais confortável de permanecer naquela posição "Do que, por exemplo? De ter se casado comigo?". "Você nunca foi tão bom em adivinhações como agora" ela respondeu rindo de leve e então se calou. Ficou olhando pela janela meio aberta enquanto ouvia a respiração descompassada do homem ao seu lado. A noite lá fora parecia quase tão densa quanto a escuridão dentro do quarto, sem falar no silêncio. Mas silêncio nenhum seria mais pesado do que aquele que ela e ele dividiam provavelmente pela última vez. Com um suspiro longo, ela voltou a falar "Me arrependo dos dias que amanheci feliz e desfiz a felicidade minutos depois, das tardes em que não vi o sol se pôr porque estava ocupada demais não aproveitando simples fenômenos como esse, das noites que passei em claro me preocupando com o que não deveria" e olhou pra ele de esguelha "Você passou tanto tempo do meu lado e no final das contas não me fez nada realmente de bom, mas eu não me arrependo de ter te conhecido". Ele mexeu a cabeça vagarosamente e a encarou de forma solene "Como não? Acabou de dizer que se arrepende de ter casado comigo, mulher!". "E disso eu me arrependo mesmo" ela confirmou sem pestanejar "mas ter te conhecido e ter casado com você são coisas diferentes. Não me arrependo de ter te conhecido porque com você eu aprendi a consertar meus erros pra não precisar mais me arrepender deles" disse isso calçando as botas novamente. Sob o olhar dele, ela levantou da cama, amarrou os cabelos num coque firme e colocou as mãos nos bolsos da jaqueta justa de couro. Ficou parada em pé ao lado da cama por alguns segundos e, com um sorriso brilhante no rosto, sibilou uma última pergunta "Mas sabe do que eu não me arrependo?". Ele foi capaz apenas de acenar negativamente com a cabeça em resposta. "De ter gastado essa bala com você" ela disse triunfante e saiu em direção à porta da sala. Quando encostou a mão direita na maçaneta, jurou ouvir uma última exclamação agonizante vinda do quarto e, mais do que satisfeita, girou a maçaneta, acariciando a arma dentro do bolso esquerdo da jaqueta.

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